Subitamente, antes de chegar ao Mundial, Portugal tem esta noite a final do Mundial que Carlos Queirós sonha para a selecção nacional agendada, em Joanesburgo a 11 de Julho de 2010. É o tudo ou nada, uma final autêntica onde se joga prestígio e dinheiro mas não o futuro do futebol português

comprometido nos últimos anos de aparentes sucessos desportivos (menos) e financeiros (substanciais).
É engraçado que o dramatismo envolvendo o jogo em Zenica surja poucos dias após o sorteio do play-off e da própria 1ª mão na Luz. Porque a Bósnia era tida como equipa das mais fracas, apesar dos "avisos" que se tomaram por megalomanias. Porque Dzeko e Ibisevic formam mesmo uma dupla atacante temível, de que muitos zombaram com o anúncio dos 25 ou 27 golos na sua qualificação. Porque Blazevic, de argúcia táctica conhecida e comprovada em Lisboa, sabe montar a sua equipa e tem um discurso motivador e agressivo. Para os artistas do "é canja, ganhamos nas calmas", esta foi a primeira lição. Há distintos e colunáveis adeptos que nem o conheciam sequer aquele que se autointitulou o "melhor treinador do mundo" quando levou a grande selecção da Croácia ao 3º lugar no Mundial-98.
A segunda lição é que, para Portugal, apontado como "favotiro" à partida, para uns a 80 ou 90%, parece que 1-0 reduz as suas hipóteses de apuramento e a Bósnia, para quem dela ironizou como se fosse "grande equipa" (que não é, nem 8 nem 80), é tida como capaz de virar a eliminatória e, quiçá, partir com "fifty-fifty" de possibilidades de ir ao Mundial. Uma final que, para a Bósnia, pode ser perdida mesmo ganhando 2-1 (ou 3-2, 4-3, etc.), o resultado que lhe bastava em 2003 para ter-se apurado para o Euro-2004 em Portugal: ao invés, empatou com a Dinamarca em casa (1-1) e nem ao 2º lugar e play-off foi (seguiu a Espanha), com os dinamarqueses vencedores do seu grupo.
Para os detractores, inesperada e inexplicavelmente, saídos da trincheira quais "partizans" na luta de resistência aos ventos de mudança nas selecções nacionais, Portugal tem defesa fraca, porventura a soçobrar em Zenica, como vão apontando os bósnios nos "mind games". Contudo, dos 11 golos sofridos por Portugal nos 17 encontros sob o comando de Carlos Queirós, a defesa das quinas sofreu seis do Brasil, num jogo que não devia ter sido disputado mas houve que honrar compromissos (e 300 mil euros) antes assumidos, e apenas cinco na fase de apuramento, o que é um bom registo contra ataques objectivos como os da Suécia e da Dinamarca (também sofreram cinco golos cada), sem que os suecos tenham marcado (e sofrido) qualquer golo nos jogos com Portugal.
Eis, então, uma estranha final, num campo maltratado e acanhado, supostamente com um ambiente infernal de menos de 15 mil adeptos, por muito fanáticos que sejam. Portugal quase como "coitadinho" ante a sobranceria bósnia e sujeito a "guerra interna" e desconfiança de muitos dos seus adeptos. Para atiçar o

bota-abaixismo lusitano, especulou-se (DN) que Queirós teria preferido jogar no Porto em vez de na Luz.
Edificante. Aqueles que encolhiam os ombros às diatribes de Scolari face ao tão distante Porto, quiseram armar uma confusão ao contrário, imputando a Queirós uma alegada rejeição de jogar na Luz.
Confio que Portugal vença o jogo e até sem sofrer golos. Confio plenamente que se qualificará e não vejo sequer uma eliminação como o fim do mundo, como não foi para a Inglaterra falhar o 2008 na Suíça/Áustria e a Holanda ver pela tv o Mundial-2002 ultrapassada por Irlanda e... Portugal.
Era, contudo, muito bom que Portugal se qualificasse por todos os motivos e mais alguns. Porque disputou um dos mais difíceis grupos de apuramento dos últimos anos, pelo menos desde 2000 (quando a Holanda ficou para trás). E porque, ao contrário do que algumas luminárias fazem por omitir nas suas injustas críticas (à parte as subjectividades de se concordar ou discordar das convocatórias e das substituições, sempre passíveis de discussão), Carlos Queirós herdou uma situação difícil, uma equipa em queda competitiva e em transição geracional que já antes - no anúncio avisado de não ir renovar contrato, com Scolari durante o Mundial-2006 - fizera o anterior seleccionador pensar duas vezes. Se bem recordam, os amigos cronistas lá lançaram o alarme em plena competição na Alemanha, Scolari lá continuou e sofreu a perda de valores inigualáveis e a teta que chupou até... ao tutano. Bem tinha razão para temer e foi penoso assistir aos dois últimos anos do brasileiro.
Além de não ter tido os meninos da Geração de Ouro que formou e lançou no futebol internacional, de Figo e Rui Costa a F. Couto e S. Conceição, Queirós nem teve sequer Cristiano Ronaldo em condições e ao menos com um golo na qualificação. Mesmo assim, pareceu crime de lesa-Pátria utilizá-lo frente à Hungria, num lamentável empolamento de uma situação em que a selecção tinha toda a razão, técnica, moral e regulamentar, do seu lado, sem ter esquecido, nem outra coisa seria de esperar, o lado humano e clínico do jogador que também quiseram fazer passar como "irresponsabilidade" da FPF e de Queirós pessoalmente.
Se passar ao Mundial, mesmo perdendo 2-1 por exemplo, Queirós fará sempre melhor do que Scolari em condições mais difíceis. Porque, como disse logo à partida, não teria 17 jogos de apuramento como Portugal beneficiou até entrar no Euro-2004. E, nestes 17 jogos comparados com os 17 iniciais de Scolari de 2003 a 2004, não é que Queirós tem melhores resultados?
Início de LF Scolari até à entrada no Euro-2004

Itália, 1 – Portugal 0
Portugal, 2 – Brasil, 1
Portugal, 1 – Macedónia, 0
Holanda, 1 – Portugal, 1
Portugal, 0 – Paraguai, 0
Portugal, 4 – Bolívia, 0
Portugal, 1 – Cazaquistão, 0
Portugal, 0 – Espanha, 3
Noruega, 0 – Portugal, 1
Portugal, 5 – Albânia, 3
Portugal, 1 – Grécia, 1
Portugal, 8 – Kuwait, 0
Portugal, 1 – Inglaterra, 1
Portugal, 1 – Itália, 2
Portugal, 2 – Suécia, 2
Portugal, 3 – Luxemburgo, 0
Portugal, 4 – Lituânia, 1
9v, 5e, 3d – 35-16gInício de Carlos Queirós até ao último jogo de apuramento para o Mundial-2010

Portugal, 5 – Ilhas Faroe, 0
Malta, 0 – Portugal, 4
Portugal, 2 – Dinamarca, 3
Suécia, 0 – Portugal, 0
Portugal, 0 – Albânia, 0
Brasil, 6 – Portugal, 2
Portugal, 1 – Finlândia, 0
Portugal, 0 – Suécia, 0
Portugal, 2 – África do Sul, 0
Albânia, 1 – Portugal, 2
Estónia, 0 – Portugal, 0
Liechtenstein, 0 - Portugal, 3
Dinamarca, 1 – Portugal, 1
Hungria, 0 – Portugal, 1
Portugal, 3 – Hungria, 0
Portugal, 4 – Malta, 0
Portugal, 1 -- Bósnia, 0
10v, 5e, 2d – 31-11gCuriosamente, neste período de observação, Scolari teve jogadores como F. Couto, J. Andrade, S. Conceição, Rui Costa, Rui Jorge, Figo, Pauleta, Maniche, Costinha, Petit, entre outros então no auge como Caneira, F. Meira, Postiga, Nuno Valente, Miguel, Nuno Gomes, Quaresma, Frechaut.
Nos seus primeiros 17 jogos, Scolari utilizou 36 jogadores, 15 foram estreantes como Pedro Mendes (única aparição na estreia do seleccionador em Itália, desaparecendo nos restantes 70 e tal jogos com Scolari) e Ricardo Carvalho ou Deco, além de tipos como Luís Loureiro (lembram-se, do Gil Vicente?), Rogério Matias, Silas e... a chamada provocatória de Bruno Vale 3º g.r. nas Antas onde pontificava Vítor Baía.
Queirós, até hoje, usou 40 jogadores e apenas 13 estreantes, sendo que os últimos Liedson e Coentrão foram os únicos testados pela primeira vez em jogos oficiais de qualificação. E para quem temia, sem razão nem factos, que Queirós mexia muito nas convocatórias, quiçá como se Figo, Rui Costa e F. Couto ainda estivessem no activo mas esquecidos ou ostracizados como Vítor Baía, a verdade é que dos 36 utilizados só na época passada, apenas Danny (depois lesionado), Eduardo, Rolando, Gonçalo Brandão e Edinho foram utilizados mais de uma vez, aquela que honrou César Peixoto (no Brasil), Orlando Sá (com a Finlândia este ano, depois lesionado até hoje), Beto, Zé Castro e Eliseu (todos na Estónia, em Junho).
Para quem ainda tem ideia do antigo alfobre de muitos e de vários grandes jogadores, o quadro de recrutamento é mais fraco, com um nível geral de qualidade e capacidade competitiva abaixo do que era comum esta década. Ao ponto de, por lesão de Hugo Almeida, ter que recorrer a Liedson (com 31 anos), além de continuarmos à procura de um lateral-esquerdo de encher as medidas sem alguma vez o termos tido. Duda, por exemplo, foi usado uma vez por Scolari, no Kuwait, mas parece que, além de Nuno Valente em fase terminal como Rui Jorge, a chamada de Rogério Matias e a utilização forçada de Paulo Ferreira à esquerda não é uma lacuna preocupante há anos.
Tudo isto tem sido esquecido de forma dolosa por quem critica convocatórias que dantes eram sacralizadas em nome do "núcleo duro", em que à partida existiam proscritos e cujas composições eram ou tão previsíveis ou

comunicadas pelo cronista mais amigo em tom oficioso. Além de faltarem os grandes craques que ainda povoam as nossas memórias, mais as posições periclitantes no onze, da baliza ao ponta-de-lança, e um Deco em plano inclinado de sustentabilidade de rendimento. A discussão de poder chamar este e aquele, curiosamente, para azucrinar Queirós, hoje vem daqueles, normalmente benfiquistas (na sua maioria) e/ou sportinguistas (apelos a Miguel Veloso a defesa-esquerdo...), que achavam bem o anterior seleccionador deixar de fora o melhor guarda-redes de sempre, Vítor Baía e por causa disso (mas não só, foi por muito mais) os adeptos portistas detestavam o seleccionador brasileiro.
Os que criticam a qualidade de jogo devem estar esquecidos do horror da anterior qualificação, para não falar da queda acentuada nas classificações finais de 2º em 2004, 4º em 2006 e 8º em 2008.
Faltava apurar o argumento da sorte, raramente ou mesmo nunca evocada na Senhora do Caravaggio, de alguém ter escorregado para Portugal chegar a este play-off. Foi a "ajuda" da Dinamarca, ganhando à Suécia, com três rondas por disputar num grupo com 10 jogos.
Esquecem que, para 2008, num grupo com 14 jogos (mais facilidade de recuperação e faculdade de outros escorregarem, como sucedeu), Portugal apenas chegou ao 2º lugar que dava apuramento a... três jogos do fim, ganhando ao Azerbaijão a 13 de Outubro (milagre!) de 2007, mas beneficiando de a Finlândia ter empatado na Bélgica. E, para melhor se entender a sorte, depois foi preciso o inglês Mike Riley negar um penálti sacrossanto à Arménia na derrota à justa em

Leiria (1-0, por Hugo Almeida), além de termos terminado com os finlandeses no Dragão e o coração nas mãos até ao último minuto nas famosas vitórias de "meio a zero" hoje felizmente banidas do discurso oficial.
Todos estes factos têm sido negligentemente omitidos até na Imprensa da especialidade, o que diz bem da honestidade intelectual e a capacidade de análise e apreciação dos mesmos factos. Sem lerem e habituados a ouvir na tv os banais comentadores de opinião avulsa e não fundamentada, a maioria dos adeptos, antes rendidos a um vendedor de banha de cobra, criou uma onda de pouco afecto e muito distanciamento para com a selecção.
Resta saber se, como diz o habitual correio das mentiras, em caso de derrota Queirós se demitirá. E, então, quem no quadro actual será capaz de fazer melhor. Isto já para nem falar do alçapão em que deixaram cair as selecções de nível etário, onde o autointitulado "o chefe sou eu" não assumiu as responsabilidades inerentes ao cargo e à... cagança.
Se Portugal passar, nem a Cristiano Ronaldo o deve; se falhar, os adeptos do Real Madrid, nos dois lados da fronteira, escusam de ter medo da sua desvalorização para quem tem um contrato de 6 anos e inviabilidade de ir para o mercado de novo.
Boa sorte, Portugal!